Durante muitos anos, Moçambique produziu recursos minerais como ouro, na Província Central de Manica; tantalite, na Província Central da Zambézia; carvão mineral (antiga mina da carbomoc), na Província central de Tete; e muitos outros recursos minerais espalhados por todo o País. O maior enfoque vai para as zonas centro e norte, devido à sua geologia (dominada pela presença de rochas mais antigas e com forte potencial para acumulação de recursos minerais de elevado valor econômico). A estes recursos é, também, associado a exploração, em grande medida, dos materiais de construção em quase todo País, quer em formações geológicas mais recentes, assim como as mais antigas.

Até então, a exploração era feita em quantidades não significativas e com uma mão-de-obra reduzida. Porém, nos últimos 15 anos e com início em 2004 da produção de gás no campo de Temane, Província de  Inhambane, com a entrada, em 2007, da produção das areias pesadas de Moma, na Província de Nampula, em 2011, da produção de carvão mineral pela Vale Moçambique, na Província de Tete, e recentemente o início da produção de grafite pela Syrah Resources, em Novembro de 2017, Moçambique ascendeu a uma dimensão maior em termos de produção de recursos minerais, quer em termos de aparato operacional, assim como nas centenas e centenas de profissionais nacionais e estrangeiros envolvidos na extração, processamento e controlo de qualidade, Transporte e comercialização dos recursos minerais.

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A realidade mineira actual e com uma história adolescente de aproximadamente 15 anos de extração industrial e diversificada de minerais, exige dos moçambicanos, no seu todo, uma nova forma de olhar para este sector. Essa nova forma de abordar o sector mineiro exigida aos moçambicanos, fará com que haja cada vez mais capacidade de participar de forma activa nas diferentes frentes de operacionalização desses empreendimentos mineiros, e que efectivamente contribuam para a transformação e elevação do saber técnico operacional e comercial, assim como da economia de escala à nível nacional e no melhoramento das condições de vida das comunidades onde os projectos estão sendo inseridos. Para que tal aconteça, é importante que entrem em funcionamento os seguintes pilares:

  1. Formação orientada para as necessidades operacionais da indústria extrativa, para além de novas descobertas;
  2. Divulgação constante do nível de desenvolvimento, processos associados e impacto da indústria extrativa;
  3. Participação activa do governo, comunidades, sociedade civil e empresas do sector mineiro no desenho, implementação e desenvolvimento de boas práticas dentro da indústria extrativa.

Formação orientada para às necessidades operacionais da indústria extrativa

Os pontos acima arrolados podem ser materializados com o envolvimento de todos os actores, desde as universidades até às empresas em actividade,   ora vejamos: o contexto actual pede pela formação em áreas específicas, e não em áreas gerais como geologia, engenharia de Minas, engenharia de petróleo, etc. Isto mostra que há uma necessidade de um mapeamento profundo que deve ser feito de forma coordenada entre as universidades e as empresas, para que as mesmas passem a formar técnicos com conhecimentos específicos para responder as necessidades da indústria, tais como: engenheiros de processamento, geofísicos, engenheiros de reservatório, petrofísicos, engenheiros de perfuração, engenheiros de produção, sedimentológicos, paleontólogos, engenheiros de qualidade, economia mineira, desenvolvimento rural, etc. É óbvio que essa transformação orientada do saber não pode ser feita de dia para noite, porém é possível começar com capacitação de curta duração em módulos desenvolvidos com apoio das empresas nas diferentes instituições de ensino superior e médio, desde que as mesmas não sejam apenas teóricas e tenham uma forte carga prática. Esta ligação entre as instituições de ensino superior e médio com as empresas e governo irão contribuir para diminuição da aparente separação que existe e aproximação significativa dos conteúdos leccionados e a actividade prática desenvolvidas na indústria mineira. É um facto que o conhecimento da indústria mineira têm o seu custo e quanto mais específica é a formação mais cara se torna. É assim que é importante que mais uma vez e sem sufocar economia dos projectos que as empresas colaborem de forma reciproca com as instituições de ensino superior e médio como centros de pesquisa, podendo até equipar as mesmas com laboratórios utilizados na indústria, softwares aplicados, e até mesmo os seus mais experientes profissionais para que durante algum tempo capacitem o pessoal dentro das instituições e que posteriormente deia seguimento às formações.

Divulgação constante do nível de desenvolvimento e impacto da indústria extrativa

Por mais positivo que seja, o desenvolvimento e impacto de uma determinada actividade, se ela não for devidamente divulgada, haverá sempre um vazio de entendimento o que contribuirá para uma avaliação um tanto quanto erronia sobre o real impacto e desenvolvimento da actividade. Nesse âmbito, é importante que haja uma divulgação perceptível por parte das empresas, do governo, das organizações da sociedade civil e os órgãos de comunicação social. É importante notar porém que toda informação é bem percebida quando dada na sua profundidade e com linguagem simples, e associado a complexidade da indústria extrativa nasce a profunda necessidade de capacitação dos diferentes actores alocados na divulgação de informação e dos impactos e desenvolvimento da indústria e isso passa por envolver os órgãos de comunicação social em sessões de formações de curta duração organizadas pelas empresas privadas e pelo governo, os quais estão envolvidas na exploração de recursos minerais e actividades de gênero, contribuindo para uma clarificação dos conceitos e divulgação realística do desenvolvendo da indústria extrativa e seu impacto. O resultado desta prática, será uma recepção positiva dos projectos por parte das comunidades e da sociedade em geral. A divulgação esclarecedora contribuirá, também, para o desenvolvimento de estudos sociais e de engenharia específica que tenham como foco o caso de Moçambique, contribuindo assim para um melhor conhecimento técnico e social dos projectos da indústria mineira desenvolvidos em Moçambique.

 

Participação activa do governo, comunidade, sociedade civil e empresas do sector mineiro no desenho e desenvolvimento de boas práticas dentro da indústria extrativa

O desenvolvimento da indústria extrativa deve continuar a trilhar nos caminhos que conduzem a uma clara transparência, garantido a participação activa de todos os actores envolvidos  no processo e em constante contato com as comunidades locais. E Isso passa por organização de campanhas de sensibilização das comunidades e de esclarecimento dos passos necessários para o desenvolvimento de um projecto mineiro bem como o complexo processo de reassentamento e conteúdo local. É importante que a comunidade, o governo, as empresas e a sociedade civil estejam todos envolvidos nos processos de reassentamento e de levantamento das necessidades básicas das zona a serem utilizadas para esse efeito, é importante que as informações sejam partilhadas de forma clara, atempada e eficiente para que se desconstrua a ideia em crescimento de que os recursos minerais podem significar maldição para os moçambicanos, e isso passa por um envolvimento coordenado por parte de todos e de um compromisso para com as boas práticas internacionais.

O futuro de Moçambique, certamente, terá um forte cunho da indústria mineira, e o início da produção do gás natural liquefeito na região nortenha e rica  da bacia do Rovuma previsto para 2024 irá relançar o crescente potencial mineiro de Moçambique  e contribuirá para o aumento do uso interno dos recursos mineiros. Porém, o conhecimento técnico operacional, o saber fazer, a qualidade na monitoria e fiscalização do que existe e que é produzido, a interpretação aprofundada dos modelos económicos apresentados pelos proponentes, por pessoal bem formado em economia mineira e governação, o reduzir da grande dependência da consultoria internacional, e o posicionamento estratégico de Moçambique na pesquisa de novos recursos minerais e a sua exploração dependerá da forma como abraçamos hoje está causa e sobre tudo da nossa visão na formação específica dos moçambicanos, envolvimento e enquadramento nos projectos de todos actores.

Investir num plano estratégico de definição de recursos minerais do futuro como são o caso da grafite, calcário, carvão e outros recursos de elevado valor econômico como é o caso do Ouro, Rubi e Petróleo, irá contribuir para arremeço do crescimento econômico e social do país.

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